É tempo de viver sem medo II

por Carlos Frankiw

18 de junho de 2013

“É tempo de viver sem medo.”
Eduardo Galeano

Por clarezas, sobre aqueles que manifestam…

Há, e não poucos, daqueles dentre meus amigos que percebem alguns dos perigos postos entre as miríades de bandeiras ontem e sábado levantadas em Belo Horizonte. Do que penso: se o genérico “contra a corrupção” é o que tem levado muitos garotos às ruas, não é preciso um condenar de antemão aquilo que certamente se tornou, se tornará uma batalha simbólica pelo que ocorre no país (ao contrário, é razoável louvar que ao menos nas ruas estejam).

O que é preciso, neste caso, é dialogar, debater, confrontar, é tentar fazê-los, persuadi-los, a entenderem que o inimigo detém concretude, que está longe de ser uma generalização abstrata. Que se materializa numa força repressora a mando de alguém, um mesmo alguém que pediu pela justiça a proibição de manifestações em território mineiro nestes dias. Que a existência de um território da República da FIFA & Sócios em meio à Belo Horizonte se deve única e exclusivamente aos atributos da Lei Geral da Copa aprovada pelo Governo Federal. Que as políticas de remoção de moradores de rua e populações carentes para as obras da Copa tem sido feitas diretamente por parte do Poder Público Municipal, sem qualquer forma de diálogo e afrontando diretamente a constituição brasileira. Ou, em termos mais práticos, que se trata de lutar por direitos e não abstrações.

E é preciso dar visibilidade e estabelecimento à concretude das bandeiras acá, inteiramente locais. Não se trata de 0,20 centavos, mas de 0,15 aqui; se trata de um transporte público ineficiente, de um poder público incapaz de dar maiores atribuições orçamentárias em favor de obras de transportes alternativos/coletivos que diante do transporte individual motorizado; que o metrô é demanda que deve ser colocada diretamente em cena e não a cada eleição municipal e que há responsabilidade, por omissão direta, de poderes municipais e estaduais; que há uma liminar vigente neste estado em direta afronta à constituição a simplesmente proibir manifestações na cidade e que a mesma se coaduna diretamente com o projeto de restrição de manifestações públicas à Praça da Estação; que há, no plano municipal, um conjunto de políticas explicitamente voltadas à restrição/eliminação de direitos das populações carentes, bem como um cerceamento dos antigos, poucos e mal dimensionados espaços de diálogo entre poder público e sociedade civil; que há um plano urbanístico inteiramente voltado para a especulação imobiliária em detrimento das áreas verdes do município.

Tratam-se de direitos, trata-se de radicalizar a democracia nesta cidade.

E é preciso organizarmo-nos, e é preciso para isso, darmos publicidade a Assembléia Popular de hoje, embaixo do viaduto. Entendam, muitos destes garotos que ontem e sábado estiveram conosco jamais tiveram qualquer experiência deste tipo, e é preciso que eles estejam, ou ao menos saibam, que exista algo assim.

Assim sendo, fica o convite.

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