É tempo de viver sem medo IV

por Carlos Frankiw

20 de junho de 2013

“É tempo de viver sem medo.”
Eduardo Galeano

De bandeiras…

Sou anarquista, e tenho lá meu apreço às negras bandeiras, bem como à “la rojo y negra”. Historiador, algo apaixonado pelo ofício, por aquilo que optei estudar, bem sei que o vermelho das bandeiras de operários explorados, num distante 1848, expressou os primeiros passos para qualquer sorte de ideário, de direito democrático que hoje vivenciamos em praticamente todos os cantos deste planeta.

E trata-se, ao meu caso que seja, ao caso de muitos de meus amigos, de suas causas às mais variadas, que se fui, e vou de novo, de novo e de novo às ruas, o faço por direitos. De fazer das ruas algo mais que espaço de trânsito, talvez o primeiro de meus motivos. De transporte público e gratuito como complemento e materialidade ao direito de ir e vir, do direito à moradia frente às especulações de capitais que implodem nossas cidades enquanto forma suprema de inclusão material mínima a tantos e tantos desta República a qual não canto hino quando estou nas ruas (solitariamente, tenho cantado as duas primeiras estrofes do velho hino da Associação Internacional dos Trabalhadores nestas horas).

Desta pátria cuja bandeira considero um trapo de pano/plástico num pedaço de pau/plástico (na velha licença poética de uma antiga citação), ainda tenho, daquilo que vivi, daquilo que estudei, como supremo valor a liberdade de expressão, de associação e de manifestação, tão cara e duramente conquistada num século marcado por duas Repúblicas excludentes, dois períodos tirânicos e carniceiros e uma República na qual vivo. Estes três direitos foram conquistas arrancadas, e arrancadas pela prática por anarquistas, por liberais, por socialistas, por comunistas ao longo deste século e pouco que me permito falar. E tenho lá alguma idéia, vinda de jornais de um século atrás, o quanto custou para que meus antepassados espirituais em idéias tenham conseguido levantar suas negras e vermelhas bandeiras há exatos cem anos.

E há temor, contra bandeiras vermelhas, contra estes três básicos e fundamentais direitos que asseguram a quem quer que seja poder continuar a estar nas ruas nestes dias que vivemos, que virão. Vindo, fomentado da parte de quem nunca na vida soube o que é estar na rua pra outra coisa que não ir de um ponto ao outro, de quem bem o sabe o que é estar na rua pra isso e muito se irrita em ver diferenças, naqueles ao redor.

É que estou na rua por praticar tolerâncias entre os meus que escrevo; é por praticar a idéia de que meus amig@s serem homossexuais ser algo absolutamente humano, dentre outras tolerâncias, que vou às ruas. E é por tolerar, praticar isso, mesmo absolutamente me irritando, para com aqueles com quem estive por perto, que presenciei, que me solidarizei, que detém partidárias e vermelhas bandeiras, aos quais discordarei de grande parte de seu autoritarismo, de suas práticas de mobilização, e, em muitos casos, nos dias de hoje, de sua porra de arrogância de chamar a tudo e todos que não sejam eles de “coxinhas”, que vou pras ruas. Porque, mesmo eu discordando em absolutamente tudo em métodos (1917 acabou e o que dali surgiu já deveria ter sido há tempos enterrado no campo das esquerdas), em práticas de dirigir, de se promover às custas daquilo que eles muitas vezes não tiveram participação alguma em sua gestação, eles sempre tiveram meu respeito porque sempre, sempre estiveram lá, na linha de frente, neste país. Muitas vezes junto conosco, muitas vezes sozinhos, muitas vezes quebrando o pau conosco.

Ao confronto com eles, a mim me basta por vezes a empiria do que já vi e estudei. Por meio de diálogo, de quebrar o pau e discordar em assembleia. Mas sei que eles estão juntos, mesmo que seja pra desmobilizar a porra toda (e nessas horas, normalmente sinto-me no dever de honra de quebrar o pau com eles).

Assim sendo, do que penso disso tudo: que se há problemas com eles, que tentem falar, chamar à razão e talvez eles percebam na empiria que suas formas de atuar cada vez menos detém funcionamento. Deles e de nós, é preciso a arrogância de lado, uma tentativa de tolerância e dialogar com os “vá-de-branco-bandeira-do-brasil-nariz-de-palhaço”, mesmo que isso seja difícil, mesmo que seja complexo fazer um ou outro entender do que se trata, de quem se trata de ser contrário aos nossos direitos, à sua expansão, ou redução ao status de privilégios toscos e desumanos nesta República. Porque sim, há bandeiras aos quais não merecem tolerância, seja de Partidos, seja de grupos interessados, infestados de preconceitos toscos.

Seja como tiver de ser, e esta é só uma visão em meio ao caos, se existe algo que defenderei, mesmo ouvindo ou lendo merdas do tipo “anarquismo = liberalismo radical”, é que eles levantem bandeiras e degladiem conosco, e contra aqueles que nos obstam (“Paz entre nós, guerra aos senhores”).

Porque se existe um capítulo nobre na história dos anarquismos, dentre todos outros não menos nobres, este se encontra em práticas esquecidas como as conferências contraditórias, na relativa tolerância e intermitente disposição em chamar ao bom combate aqueles que de nós discordam, aqueles entre nossas fileiras que não concordam.

Porque, do que lembro, da primeira passeata que fui, existiam bandeiras vermelhas, existiam bandeiras negras, e existia uma faixa que dizia que o fato de discordamos entre nós não nos impede de estarmos juntos.

Unless otherwise stated, the content of this page is licensed under Creative Commons Attribution-ShareAlike 3.0 License