É tempo de viver sem medo V

por Carlos Frankiw

21 de junho de 2013

“É tempo de viver sem medo.”
Eduardo Galeano

De uniões…

Eu, anarquista, empunhei ontem pela primeira das vezes uma emprestada bandeira negra. Num ato de protesto ao qual na maior parte do tempo eu e todos os anarquistas que conheço estivemos juntos a socialistas, comunistas, independentes e militantes de movimentos sociais em defesa de seu sagrado direito de empunharem suas bandeiras. E o fizemos diante de não poucos que incitavam, que se jogavam à frente para tumultuar, para arrancar, para queimar estas bandeiras.

De todo o país, saltam notícias de ataques, de agressões similares nos protestos.

E o fiz, entre o temor dos dias que virão, entre o orgulho de ter certeza do que ontem vi, e defendi.

E há temores, vindos, fomentados daqueles que, à título de legítimas reivindicações por direitos, uma vez mais, autoritariamente, querem por nas ruas seus preconceitos, privilégios e exclusões.

É preciso, e reitero, uma vez mais fazermos a tentativa de separarmos joios de trigos. Porque, entre aqueles que ali gritavam contra bandeiras, atrás daqueles que queriam fazer da força sua arma para fazer vencer sua pauta, causa, haviam não poucos garotos, garotas, que pelas primeiras vezes sentiram, estão entendendo o poder das ruas. A estes é que precisamos nos dirigir, a estes que precisamos lembrar dos três direitos (expressão, associação, manifestação), a estes que precisamos fazer entender que, ao abaixarem as nossas bandeiras, ou mesmo as bandeiras as quais não de todo concordamos, nada mais garantirá que qualquer dia desses as deles não sejam abaixadas pela força, ou que nenhuma bandeira mais possa estar nas ruas. Porque apartidarismo não é antipartidarismo, e é a este último que aqueles que nos opõem querem nos forçar a engolir.

É preciso mudarmos de atitude, é preciso reforçar o pouco que temos. Uma vez mais digo, ao diálogo, ao confronto em debate e não a arrogância, o cinismo de alto e o temor. Propagarmos aquilo que, de nosso lado, discordando entre si, nos une. E é preciso panfletos, é preciso a atitude de cada um que tenha bandeira vermelha de olhar ao seu redor e se dispor a tentar conversar com aqueles do seu lado, aqueles que detém sinceridade em sua indignação mas pouco ou nada sabem ainda do que é lutar por direitos e que ao menos se dispõem a ouvir, mesmo enquanto cantam sobre oportunismos e ausência de partidos. E termos a humildade de ouvi-los, de ver se em seus pessoais caldeirões de insatisfações, exista algo que os faça perceber que estamos juntos, independentemente de disposições, formas de nos manifestarmos.

Ao reforço, portanto, daquilo que já existia, pouco articulado, e que talvez hoje esteja sobrecarregado: iniciativas, já em gestação, de assembleias de empoderamento popular, de horizontal e voluntária deliberação, como as que estão sendo propostas e praticadas pelo COPAC. Uma vez mais, reitero: a estes, a muitos destes que estão na rua, pouco ou nunca experimentaram nada de similar a deliberar, discutir conjuntamente sobre seus próprios destinos, sobre suas próprias reivindicações, e as formas mesmas de agir em favor de se fazerem ouvir, de se praticarem aquilo de diametralmente oposto ao que os indigna.

Não, não é hora de abandonarmos as ruas, vermelhas, negras, vermelhas e negras bandeiras que discordam entre si sem deixar de serem solidárias entre si.

Não, não passarão.

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