É tempo de viver sem medo VII

por Carlos Frankiw

17 de junho de 2013

“É tempo de viver sem medo.”
Eduardo Galeano

Determinadas flores, quando cultivadas com muitas mãos, demoram lá a crescer, variam de tamanho, suas pétalas são distintas, assim como o são seus espinhos, são ora mais, menos regadas. Em Belo Horizonte, andaram (re)nascendo algumas destas.

São flores de rua. E sou anarquista que costuma ter apreço por elas. A primeira, dizendo respeito à redescoberta de que ruas têm servido a mais do que trânsito: protestam, discutem, discordam, estas flores e algumas são bem cactos de exclusão, reiteração de preconceitos e privilégios, que em comum com toda a nova flora apenas detém um conjunto outro, da ordem do cínico ao meu olhar, de sentimento de indignação com o estado de coisas. Mas ao menos se discute, se reconhece alguma coisa que diga respeito a algo mais que cotidiano, que afeta em direto, em direito o cotidiano voltou a ser reapropriado por parcelas significativas de seus cidadãos. Neste caso, cumpre dizer e reiterar prudência; há de se saber até quando, bem como se efetivamente mudou o a quem é possibilitado o uso destas ruas para algo mais que trânsito. Não há muito como mensurar se quem mais delas há de precisar para estes sentidos efetivamente terá assegurado seus direitos pela prática quando as coisas arrefecerem, se arrefecerem.

Das bandeiras, vermelhas, negras, negras e vermelhas, há ao menos algum consenso sobre o que disso há de potencialidade, no que tange à radicalização de instâncias democráticas (não, aqui, ainda não passaram, não passarão). Em alguns casos, é certo, só o tempo vai dizer de quem, para qual lado, isso penderá: há, é certo, uma margem de boa vontade sem direcionamento preciso (em bom caso derivada de angústia de não ter não saber, onde, com quem demandar ou mesmo de saber verbalizar direito sua indignação), uma margem de radicalização das dimensões horizontais em experiência, uma terceira de verticalização e burocratização para fins algo questionáveis de propaganda e impostura, todas a trabalharem, de momento, juntas.

Trata-se, pois, da segunda das flores, derivação direta da primeira. Trata-se de assembleia permanente, popular, horizontal. Esta tem florescido algo torta, algo frágil. Seus adversários são o risco de inoperância, a vontade manifesta de se sair demasiado do chão, do específico, local, imediato e a falta de articulação entre aquilo da cidade, do estado, do país, que se atropelam não poucas vezes. Decorre tal condição por ter muito a dizer, por terem muitos a dizer, por alguns acharem, no velho tesão por microfone (derivação clássica do tesão por cassetete), que indefinidamente dizer o mesmo por meio de várias vozes fará prevalecer algo que alguns consideram importante e que melhor pode ser obtido por meio de consensos anteriores às votações. Trata-se de algo em construção, em cultivo, ainda: há de aperfeiçoar pela prática, por compartilhar experiências, por criatividade. A derivação desta flor por suas dez pétalas corre estes riscos, e disso o que somente pode ser feito, em todos os casos, talvez seja o mais básico: estudar no que consiste o específico de cada uma destas pétalas.

De todos os casos, o que espero poder praticar, o que darei minha voz e opinião, é que mais flores destas, de preferência ainda mais variadas, continuem a serem cultivadas nesta cidade. Diversifiquemos as formas de uso, de ocupação destes espaços: há ainda um conjunto de boas idéias a serem levadas adiante, algumas ainda a nascerem e que precisarão de igual disposição de nossa parte.

Desta quarta, por fim: há desencontro, há temores, não dá pra se ter idéia clara do que há de ocorrer. De um lado, um governo que ora faz da Polícia Militar e suas ameaças de suicídio por prática coletiva de direitos sua porta-voz, apenas para depois dizer garantir estes mesmos direitos que esta mesma instância governamental rasgou sob a conivência do governo da federação e sua Lei de Exceção da Copa, aqui praticada sob a interpretação tosca de restrição sequer prevista de direitos constitucionais nesta monstruosidade legal. Dando respaldo, uma animalidade tecnocrática a rasgar sua sinceridade afirmando que esta mesma polícia pouco fez, pouco prendeu nos absurdos do último sábado. De outro, uma coletiva disposição em uma vez mais fazer valer seus direitos pela prática, mesmo que suas reivindicações sejam as mais difusas.

De minha parte, com ou sem bandeira em mãos, estarei nas ruas amanhã. É que arrumei um óculos de mergulho. E, mesmo sem disposição alguma em princípio em querer combater, me perfumarei de gás se necessário for, mesmo sabendo estar longe o dia em que precisarei de perfumes de novo só para a minha paixão.

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