É tempo de viver sem medo VIII

por Carlos Frankiw

27 de junho de 2013

“É tempo de viver sem medo.”
Eduardo Galeano

A vida enquanto direito…

Não conheci Douglas. Como de resto desconheço e desconhecerei por toda a vida boa parte dos que ontem estiveram junto comigo nas ruas. De seus gestos, quando muito, soube, talvez, do último, ao ser avisado por uma amiga que avistara alguém a cair do viaduto José de Alencar. Não faço idéia se foi desespero, descuido ou se foi empurrado, tampouco considero-me em situação de especular ou julgar. Sei apenas que, naquele momento, naquelas imediações específicas deste viaduto, nos encontrávamos longe do epicentro do que se sucedia.

Do que li, tratava-se de um operário metalúrgico, 21 anos de idade. Não foi o primeiro a dali cair nos dias que ali protestamos.

Tampouco sei de todo o que deu início aos confrontos de ontem. Estava algo longe, próximo ao viaduto, meus pés e pernas em petição de miséria de condições. Dos antecedentes, certo é que o mais distante se encontra na aprovação de uma Lei pela legislatura federal de um governo de turno, a cada dia um tanto mais longe de suas bandeiras e seus simbolismos de antes, de sua peculiar aplicação pelas forças policiais estaduais e federais que ontem ali estavam, em favor de interesses privados pouco transparentes.

Daqueles mais imediatos, certamente se encontra a decisão de termos a Antonio Carlos por trajeto, o estádio Magalhães Pinto por objetivo. Soma-se a incerteza daqueles mais atrás acerca do que poderia se suceder, aos quais, em parte sequer sabiam de uma assembleia, uma votação e o caráter especificamente pacífico de ontem. Uma pitada é dada por um Caminhão de Som a uma velocidade pouco superior à de nossas outras caminhadas, suficiente para que houvesse alguma dispersão entre os vários grupos de manifestantes que ali foram. É certo, deve ter existido quem provocasse, é certo, bom senso é dos dons desigualmente distribuídos entre cidadãos juntos em multidão, é igualmente certo que aqueles que pudessem resfriar os ânimos talvez pouco tivessem como, ou o que fazer, nas circunstâncias ali dadas.

Não cabe, reitero, e hoje pela manhã fui lembrado um tanto disso por motivos outros, destes do coração, julgar ou condenar sem ouvir a quem quer que seja neste momento. Nossos direitos já estavam rasgados de início, é bom recordar; igualmente razoável, nos dispomos a praticá-los coletivamente ao nos juntarmos ontem, independentemente de assembleias, destinos, votações.

Celebrei, e não nego, junto a alguns amigos, quando já distante das zonas de fronteira entre a República Federativa do Brasil e a Oligarquia FIFA & Sócios, recebemos noticias de propriedades privadas sendo destruídas. O dantesco deste tipo de espetáculo, quando uma vez estamos diante deles, quando temos algo no peito que nos lembra dos porquês de explosão em fúria, normalmente temperadas em anterior perfume de gás e o violência desmensurada, nos fazem ter entendimento diferente dessas coisas. Mal sabia do terrorismo registrado, aplicado a doses de escuridão programada e em acordes de alto-falantes, a aqueles que por último saíram deste protesto, quando celebrei.

Douglas se foi, e não vejo tantos motivos para celebrar, hoje. Se me é possível, como anarquista, fazer alguma justiça em memória, neste frágil discurso de direito à vida, me atrevendo a dizer algo dos motivos pelo qual este rapaz ali esteve, tudo o que tenho se encontra na perspectiva de alguns fragmentos de lembranças do que ali vivi e dizia respeito a ele e talvez a boa parte de nós, quanto ao que queremos, que ali estavam: sorrisos, abraços e suor compartilhado entre companheiros; um vendedor de algodão-doce; uma roda de capoeira e uma partida de futebol embaixo de um viaduto; dois amigos que se reencontram para passarem pó de café colombiano um ao outro; um grupo de fantasiados declamando letras de músicas de Tom Zé.

São estes fragmentos que hoje me farão ir às ruas tentar cultivar um pouco de uma das duas flores que nasceram em Belo Horizonte nestes dias.

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