É tempo de viver sem medo X

por Carlos Frankiw
Início de julho de 2013 (01 a 03/07)

“É tempo de viver sem medo.”
Eduardo Galeano

Anarquistas, violências…

Dias atrás, horas antes da última manifestação de largo vulto ocorrida em Belo Horizonte, postei acá uma música dos rappers do Face da Morte, a título de inspiração pelo dia. No álbum em que se insere esta música, existem três ou quatro músicas, inteiramente dedicadas a fazer um calendário poético relembrando grande parte das insurreições de cunho popular vivenciadas na história brasileira: em março, se faz menção à fundação do Partido Comunista do Brasil em 1922, em julho não há nenhuma menção à Greve Insurrecional de 1917 em São Paulo.

São silêncios significativos. Não só por ocultar importantes capítulos e atores da história dos movimentos populares ocorridos neste solo cuja bandeira continua a ser um trapo de pano num pedaço de pau. Mas por um esquecimento, deliberado ou não, de um não menor quinhão em iniquidade e desumanidade vivenciado pela militância anarquista brasileira cem anos atrás, traduzido e temperado num caldo de perseguição política, prisões arbitrárias, tortura, um campo de concentração no Amapá e deportações ilegais as quais nem mesmo aqueles que buscam justiça por memória e verdade se importam em querer lembrar.

Passado um século, o que temos, em “Estado Democrático de Direito” se traduz em mais do que ameaças ou violência física, como vivenciada nas ruas pelas bandeiras vermelhas, às bandeiras negras. Do Rio Grande do Sul, afora prisões, se apreendem livros. No Rio de Janeiro, sua imprensa clama pelo rasgar desta bandeira negra. Em Minas Gerais, fala-se em invocar a famigerada Lei de Segurança Nacional (cujas origens datam do não menos esquecido ano de 1937 e seu incensado Estado Novo, e não surgiu por milagre em 1964), fala-se que algo em torno de irreais 80 anarquistas participantes de Blocos Negros estariam sob prisão iminente.

À esquerda institucional, aquela cujas bandeiras dizem de democracia, justiças de transição e direitos sociais, salvo uma nota do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, paira seu silêncio.

E sou anarquista, mesmo não tomando em nada em parte das batalhas vivenciadas nesta cidade no último mês afora meu democrático quinhão de gás. Do que sei, de meu ponto de vista, é preferível tratar o ideário anarquista por seu plural: são anarquismos, porque se tratam de diversas formas de pensar, de estratégia, de prática em torno de um mesmo conjunto de princípios, pautados pela radical descentralização de instâncias de poder em favor de empoderamento democrático popular, pela não menos radical relação com princípios como autonomia e solidariedade, que se traduzem em direitos enquanto práticas a serem conquistadas nas ruas, e não dádivas divinas parlamentares, judiciárias ou executivas. Por privilégio ao diálogo como forma de ação conjunta, não só toleramos como incentivamos o direito à secessão e ao dissenso como forma fundamental de obtenção de afinidades e solidariedades entre nossas fileiras. Afinal, o fato de discordarmos entre si jamais impediu que estivéssemos juntos, quando preciso.

Deste caldeirão multifacetado de práticas e concepções de ideários, surgiram os Blocos Negros. Oriundos, do que sei, e do que qualquer um que pesquise sobre o tema, da antiga Alemanha Ocidental, em fins dos anos 1970 e início dos anos 1980, como tática específica de atuação diante das táticas dispersivas de massa da atuação policial e desenvolvida de maneira diversa ao longo dos anos desde então. Sua tática, normalmente, se traduz em um variado conjunto de estratégias e práticas: como primeira barreira entre as forças policiais e a população indo ao combate direto ou construindo mecanismos de defesa à chuva de bombas e balas de borracha; no auxílio a aqueles diretamente afetados pela violência repressora por meio do gás, de ferimentos ou de desespero; na depredação direcionada de propriedade privada.

Não cabe a mim tecer um julgamento sobre estas estratégias, às quais continuo, em parte, sem opinião formada. Reitero o dito anteriormente quando lembro que a vivência “democrática” e direta da violência repressiva se traduz em um entendimento distinto das depredações que eventualmente ocorrem ao seu redor; operam alguma espécie de deslocamento de percepção, na falta de um melhor argumento, mesmo, como no mau caso, não tomando parte alguma nestas. Em segundo lugar, não custa nada lembrar que a cobertura dos meios midiáticos tradicionais acerca dos ocorridos no último mês continua a traduzir como mais importante a este solo a violação ao direito de propriedade que as incontáveis violações por parte de suas patrióticas forças repressoras ao conjunto constitucionalmente prescrito de direitos à vida.

O que me cabe, disso tudo, são algumas coisas: expressar minha solidariedade, mesmo discordante, perante aqueles que por motivação política serão presos; expressar esta mesma solidariedade perante aqueles que nada detém de relação com estes e que igualmente fazem parte do místico Bloco Negro belorizontino e que ali estavam, a bem da verdade, em reação direta e sem nada a perder por terem sido “democraticamente” vandalizados em seus direitos por toda a sua vida, independentemente da coloração de turno no poder; lembrar que a agilidade policial na investigação destes todos até o presente momento não se traduziu, em nada, em investigar sua própria e inconstitucional atuação durante as manifestações que aqui se deram.

E por ser anarquista, cumpre dizer de Belo Horizonte, suas flores, e seus senhores feudais/empresariais, seus capatazes e sua violência, de ordem, por agora, simbólica.

Ontem se deu uma reunião de “democrático” escárnio institucional perante parte de sua população associada e organizada democraticamente em busca de direitos. Tendo em vista o senhor feudal/empresarial de turno e seu perfil, inimaginável seria esperar resultado distinto, o que está longe de ser uma condenação à disposição em negociar da parte daqueles que fazem parte desta flor de rua cultivada em assembleia ocupada.

Ao autoritarismo, ao meu olhar, só se faz boa batalha por meio do radicalizar nossos poderes democráticos.

Trata-se, pois, de dizer, de duelar para que as onze pétalas desta flor se traduzam, se aprofundem, na localidade, na imediaticidade de suas demandas. Não o digo pelos ideários que porto: o digo por crer que qualquer grande conquista em direitos tem seus primeiros passos com pequenos ganhos cotidianos.

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