Sobre pedras e vidraças na Praça 7 - "A revolta não é um jantar de gala"

por Paulo Rocha

Não consigo dormir tem alguns dias, fico lendo noticias e textos tentando entender o que está acontecendo de maneira geral. Obviamente, não consigo…

A insônia dessa madrugada foi causada pela quebradeira que aconteceu ontem a noite (18 de junho de 2013) na Praça 7 e que presenciei. Há diversas versões e teorias para o que aconteceu (tanto o quebra-quebra quanto aos manifestantes que quebraram o Relógio da Copa na Praça da Liberdade) como "simples" vândalos ou policiais disfarçados, eu de fato NÃO SEI quem eram, se eram ou não P2. Estava tudo muito estranho no centro da cidade.

Me sinto violentado a pensar sobre as práticas tomadas (talvez para além de quem eram) porque o que eu vi inicialmente eram lumpens, aparentemente jovens da periferia em sua maioria se divertindo destruindo agências bancárias, depredando o posto policial, fazendo fogueiras e quebrando vidraças. Observava aquilo com um brilho nos olhos de algo que nunca tinha visto!

(tudo ficava mais estranho e com um ar mais perigoso porque a polícia não aparecia! A PM NÃO VINHA! Era como se a todo instante ela fosse esperada e todos se assustavam ao mínimo movimento, mas nada acontecia)

Não agiam com as táticas de black block mas estavam devidamente mascarados e principalmente se divertiam com aquela voracidade! Não haviam líderes, alguém gritava, "Tem um banco aqui!" e eles iam quebrando e pixando! Não quero especular agora sobre quem eram essas pessoas, o fato é que (pre)vejo uma onda de repreensão dentro do próprio movimento dos descontentes com o atual estado contra esse tipo de prática tachando esse tipo de ação como baderna pura. É importante frisar NÃO É! Não podemos tomar esse tipo de ação como se não fosse parte inerente do processo de rebelar-se, como se isso fosse sempre o "outro" e não o "nós". Quando isso toma a proporção de convulsão, que não pode ser mais controlada por aqueles que insistem em terem líderes. Tudo isso assusta porque é algo que não se pode controlar!

Mas o papel de qualquer um que se pretende atento a esse tipo de manifestação da revolta é se atentar que é necessário não só dar razão aos insurretos, mas contribuir para fornecer suas razões, esclarecendo minimamente a verdade cuja procura se exprime pela ação prática.

Esse quebra-quebra é a forma prática e imediata da negação/revolta contra a mercadoria, contra o mundo da mercadoria e do trabalhador-consumidor hierarquicamente submetido às imposições da mercadoria. É a insurgência contra o Capital e suas grandes promessas de promoção e integração. O que eu vi enquanto esses "vândalos" quebravam agências bancárias foi a tomada ao pé da letra a propaganda capitalista espetacular, com sua publicidade abundante (publicidade que aceitamos passivamente mas ainda achamos ofensivo paredes pixadas).

Enfatizo que o que foi quebrado eram agências de bancos (era Brecht que perguntava: "O que é assaltar um banco, comparado com fundar um banco ?"), grandes lojas e o posto policial.É necessário ainda lembrar que não há violências contra objetos, principalmente quando esses objetos são representações do Capital e do poder. Dano à propriedade não é violência, uma janela, vidraça ou catraca não podem ser violentadas! Violento é o Espetáculo e o Estado opressor!

POST-SCRIPTUM:

há uma fina ironia enquanto observava a quebra do banco, de repente me lembrei que no final de 2012 o coletivo [conjunto vazio] fez uma ação estética dentro de bancos chamada Banco Imobiliário: Auri Sacra Fames em que uma das ações, além de jogar banco imobiliário faziamos o deposito de dinheiro falso com uma carta-ameça que dizia:

Banco Imobiliário - Quando 'Aproveitar a vida' é queimar um banco

A crítica a sociedade de consumo não é motivada porque consumimos demais, mas porque consumir virou a única coisa que nos é permitido. Somos sempre levados a viver o capitalismo da forma que ele é vendido, mas o que aconteceria se acreditássemos mesmo na publicidade? Se de fato 'vivêssemos o agora' como mandam as propagandas, esse banco já não existiria, as ruas amanheceriam com as pessoas cantando e dançando ao redor dos carros pegando fogo. Não sobrariam outdoors, propagandas, publicidade. Não sobrariam mais empregos e nem esse dinheiro sujo que sustentam vocês.

Aproveite o minuto', 'Faça algo novo', 'Toda hora é hora de aproveitar', 'Leve a vida do melhor jeito que você puder', todo um mundo de possibilidades fornecidas por 12% de juros ao mês. Estamos intoxicados pelo espetáculo, aceitando sacrifícios diários a espera de uma vida futura que não chegará. Vocês prometem, mas nunca nos dão e tomam nosso cotidiano por um valor tão baixo, como se fosse esse o verdadeiro preço da liberdade ilusória, de tantos momentos falsos e de sonhos pré-fabricados materializados em um novo cartão de crédito. Senhores, enquanto vocês dormem empanturrados de bugigangas desprezíveis, nós temos insônia com as escandalosas extorsões que sua corporação realiza. Cuidado com o que desejam aos seus consumidores, isso ainda se voltará contra vocês!

Sim, isso é uma ameaça!

VOCÊS NÃO ESTÃO SEGUROS!

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