Notas sobre os tropeços da APH

Tropeços

por Dorizete Pires

8 de julho de 2013

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seguem aqui alguns comentários sobre a APH e sua trajetória nas jornadas de junho e nesse novo momento. o interesse aqui é tentar fazer uma leitura do que estamos de fato produzindo dentro da APH, para tentar corrigir nossos erros e avançar mais.

não tenho nenhuma vontade de repetir discurso auto laudatório. reconheço que é um trabalho com sua importância, mas não tenho tal habilidade e deixo isso aos animadores de torcida. nós sabemos o que estamos
construindo, agora vamos nos focar em perceber, pensar e analisar nossos erros para poder melhorar.

não cabe aqui nenhum tipo de responsabilização individual pelos nossos erros, eles são nossos como coletivo em processo de aprendizagem. qualquer um que esteve nas ruas nas últimas semanas sabe que fomos todos levados pelo fluxo dos acontecimentos em velocidade vertiginosa.

o que nos importa agora é perceber com clareza e honestidade quais foram nossos tropeços, para conseguir avançar cada vez mais fortes e democráticos.

1 - dos tropeços e reencontros

um dos maiores sucessos das jornadas de junho foi a adesão de milhares de pessoas que tradicionalmente não colavam com os movimentos sociais. é claro que os coxinhas foram um problema, mas não eram 120 mil coxinhas nas ruas, os coxinhas eram uma minoria radicalizada dentro daquela lanchonete. Além dos coxinhas houveram os jovens das favelas que desceram para enfrentar a polícia em outros termos, as torcidas organizadas legitimamente furiosas por não poder ir ao Mineirão, o amplo apoio do povo dos bairros ao redor da av. Antônio Carlos e etc.

o ataque mais radical dos coxinhas aos que portavam bandeiras e aos pixadores aconteceu nos protestos esparsos entre a primeira e a segunda marcha ao mineirão. até a primeira marcha ao Mineirão os coxinhas incomodavam mas não o suficiente para o que viria depois: na segunda marcha ao Mineirão as forças progressistas já formavam um bloco organizado dentro da marcha gigantesca. (ou dois, já que o bloco negro e alguns satélites ficaram normalmente mais distante, provocando os nacionalistas e coxinhas)

ficando todos juntos as forças à esquerda fortaleceram laços mas iniciaram um processo de fechamento em si. (ver mais a frente) enquanto estávamos espalhados pela marcha gigantesca podíamos infectar uma parte maior da marcha com palavras de ordem, rimas e cantos progressistas. quando nos tornamos um blocão deixamos de disputar (e conhecer melhor) parte da marcha e demos também mais segurança aos coxinhas oportunistas. o contrapeso disso foi feito pelos bloquinhos (negro, zumbi e etc) que fizeram questão de provocar (e impressionar) os nacionalistas e coxinhas.

2 - golpes de nós contra nós mesmos: a APH

a) o primeiro golpe que nos demos foi fazer uma segunda sessão APH que desconsiderasse completamente as pautas votadas na primeira sessão.

se aquelas pautas tivessem sido legitimadas teríamos, pelo menos, pautas básicas (que poderiam ser expandidas) desde o dia 18 de junho! a falta de memória da APH permite que quem grite mais alto (ou cite o nome de algum mártir) comande a pauta da sessão e garante a todos a sensação de que nenhum acordo será respeitado, dando um tom de inutilidade e esvaziando simbolicamente a APH.

b) o segundo golpe que nos demos foi mudar a APH de lugar.

um pouco de cronologia ajuda a entender as coisas nessas horas: a 4a Sessão da APH chamou um ato para a Câmara no sábado. votação perdida, câmara ocupada, uma "assembleia da ocupação" definiu então que haveria uma "assembleia da ocupação" no domingo, e que não era a mesma APH, que já tinha uma sessão marcada para segunda. no domingo a "assembleia da ocupação" decidiu que a APH mudaria de lugar.

há aqui uma questão que vai além de um formalismo de ocasião.

curioso processo: isso se deu na hora que os 300 espartanos ocupantes da Câmara decidiram que eles eram importantes demais para a APH (cujas reuniões estavam com cerca de 1200 pessoas) para que ela acontecesse debaixo do Viaduto sem eles. talvez pelo local, talvez pelo horário, talvez pela própria tenacidade militante, o grupo que ocupou a Câmara foi também o grupo mais homogêneo desde o início das jornadas de junho: eram em sua maioria habitués de manifestação, "acordados faz tempo", progressistas, esquerdistas, tilelês, autonomistas e anarquistas. haviam as exceções, claro, mas eu não disse que éramos todos, disse que éramos, pela primeira vez desde o primeiro ato de junho, maioria dentro do ato.

enquanto a APH esteve no hipercentro, debaixo do viaduto, em frente a um dos maiores pontos de ônibus da cidade e em horário de pico, tínhamos uma interface com a cidade que era uma forma de agitação permanente. a centralidade garantia a presença de moradores de rua, gente saindo do trabalho, transeuntes desavisados, comerciantes e etc. e também muita gente para quem o centro era "mais mão" que o santa efigênia.

aqui não podemos nos enganar, a leitura é clara: demos um golpe nessas pessoas.
e não foi por força da urgência, do contexto e etc., foi uma escolha política, e o quanto antes percebermos isso melhor será para que possamos avançar mais fortes.

durante os 8 dias de ocupação houveram 6 sessões da APH. as pautas, motivo principal da própria formação da APH, que havíamos votado *de fato* na PRIMEIRA sessão e que os GTs haviam reinventado na 3a sessão, ainda não foram votados. conseguimos com muito custo votar a pauta municipal do GT de transporte (que se tornou a pauta mínima da Ocupa Câmara) e algumas das pautas estaduais de alguns GTs (outra pauta mínima).

o ato de sexta feira ficou completamente esvaziado porque quem ocupava a câmara se recusou a sair de lá, fortalecendo essa sensação esquista do "dentro e fora" da ocupa. quem foi ao ato não entendeu nada e ficou se sentindo traído.

c) o terceiro golpe que nos demos foi não garantir uma assembleia autônoma para a ocupação (que é uma derivação do segundo golpe)

a última sessão da APH conseguiu fechar de maneira poética o autofágico fechamento em si mesmo das forças progressistas iniciado lá na segunda marcha ao Mineirão. a Ocupação virou uma prova de tenacidade, onde os que estavam livres de obrigações trabalhistas ou de compromissos em horário comercial tinham ampla vantagem. de repente as pessoas que estavam em todas as sessões da APH mas que não dormiam na Câmara passaram a ser vistas (e tratadas) como outsiders e pelegos.

o ápice épico desse processo foi na última sessão da APH na Câmara, quando vi um ativista com o microfone na mão pedindo para que os que não estavam dormindo na Ocupa não votassem naquela que era a única pauta daquela sessão da APH: a desocupação. o pedido teve amplo apoio das mãozinhas balançando, de modo que depois da primeira votação o ativista se animou a pegar o microfone novamente numa ameaça irônica: "gente estou vendo que tem gente que está votando que não está dormindo aqui, vamos ter bom senso…". novamente muitas mãozinhas balançaram, especialmente dos espartanos que seguravam cobertores e sacos de dormir.

claro, há que se entender a legitimidade da autonomia daqueles ocupados, mas se era para fazer uma reunião fechada, que não convocassem a APH, oras. num dos dias mais frios do ano, fazer alguem sair de casa para ir até a Câmara ouvir alguem dizer que quem não está não colônia de férias não é bem vindo é um desrespeito.

mas o pior não foi isso. isso se tratou principalmente de um efeito colateral do fechamento que vinha sendo construído. o pior foi que ao não consolidarmos uma "assembleia da ocupação" não conseguimos garantir um lugar para expressar as questões internas da ocupação, que permaneceram assombrando a APH. as rusgas pessoais de quem ocupava a câmara viraram protagonistas da APH porque não havia outro lugar para elas se expressarem.

sem esse canal para expressar as demandas internas da ocupação, as tensões foram aumentando até que a ocupa terminou por motivo de cansaço extremo de quem investiu o próprio corpo naquele lugar.

sem a memória que permite o acúmulo, e fechada em seus espartanos ocupantes, aconteceu que a ocupação da Câmara passou a replicar certas crises típicas de movimento estudantil. o momento de lua de mel em que as forças progressistas se encontravam terminou seu ciclo no momento em que voltamos aos ranços e replicações de crises passadas.

as demandas mínimas não foram alcançadas e mesmo assim não havia uma única alma a defender abertamente a manutenção da ocupação.

as reclamações pareciam ecos do passado: "alguem ficou pelado", "alguem fumou maconha", "eles vão dar motivos para a mídia destruir a ocupa", "alguem proibiu de beber dentro do prédio", "os burocratas são mais autoritários que a mídia e a prefeitura", "no tempo dos vereadores podia beber aqui dentro, agora não pode mais", "eles são burocratas", "eles só querem farra".

quando um grupo começou a cantar "sem-sualismo" um conhecido virou pra mim e falou "se eles gastassem essa liderança para o bem…".

(pelo menos não estavam presentes as reclamações de pixação, que antes eram frequentes no movimento estudantil e que foram superadas há alguns anos.)

essas questões dos "burocratas" e dos "tilelês" ser tão repetitiva, mesmo com atores outros, deveria ser um sinal de que há ali uma coisa importante a ser debatida e superada. a ausência de um canal específico da Ocupa nos fez perder essa oportunidade.

outra coisa que acabou por não ser debatida amplamente foi a própria autogestão da Câmara, talvez a maior vitória até o momento, mas que tende a se perder se não conseguirmos transformar em relatos e debates para ampliar o escopo e produzir mais avanços.

tampouco houve um espaço para expressar o efeito da "especialização do trabalho revolucionário", levantado sobretudo pelos ativistas que cuidaram da Alimentação e Limpeza. a crítica era que certas atividades eram mais valorizadas que outras, e que certas pessoas se focavam apenas nas que davam maior "status revolucionário". ou seja: tinha gente que adorava um microfone e odiava um rodo. (sobre isso, ler abandone o ativismo!)

essas pequenas rusgas cotidianas não devem ser menosprezadas como sem importância, o tipo de aprendizado que isso possibilita é fundamental para que tenhamos força para dar um novo passo adiante.

d) o quarto golpe foi de comunicação

enquanto estávamos nas ruas do centro, ou marchando para a zona norte, a comunicação com a cidade era feita na rua, na lata, no grito. a partir do momento que nos focamos na câmara ficamos mais dependentes da mídia tradicional (e portanto mais fragilizados) e do facebook. não fizemos nenhum esforço para ampliar nosso alcance de comunicação dentro da zona leste, onde tínhamos a Câmara como aparelho. não usamos rádio, lambe-lambe, ou panfletagem na caixa de correio.

3 - bola pra frente

pouco me importam aqui as intencionalidades dos sujeitos envolvidos. é muito pouco útil imaginar as intencionalidades de sujeitos que sequer conheço. o que nos importa é avaliar os resultados práticos para pensarmos bem em novas ações e práticas.

o fato é que estamos saindo da Câmara com as forças progressistas mais unidas do que entramos, mas também mais cansadas. uma possibilidade é aproveitar as duas coisas.

segue uma pequena provocação para pensarmos em novos passos: urge, em primeiro lugar, aprovar as pautas da APH. isso deve ser o principal, e que o governador e o prefeito se adequem a este calendário. são 11 GTs e 11 meses. dá tempo ;)

cada GT pode organizar seu mês de lutas, com material gráfico e uma manifestação pelas pautas votadas na APH.

após a votação das pautas, reduzimos a marcha da APH para fazer sessões mais esparsas (sugiro 3 meses) e aproveitamos para fortalecer os movimentos da rede que hoje configura a APH.

a proposta é que a Dandara chame uma APH - Ceu Azul e região, a Eliana Silva chame outra, o Santereza chame outra, a Serra outra e assim por diante. dessa forma poderíamos fazer Assembleias de Bairro para definir pautas específicas de regiões da cidade. essa é uma estratégia para manter a APH como uma frente popular municipal (ou metropolitana) ativa, e essas assembleias de bairros são uma forma de agitação, propaganda e de construção do poder popular.

isso também pode nos ajudar a fazer o caminho inverso do que fizemos na última semana, ou seja, podemos criar novas interfaces com a cidade e, especialmente, as periferias da cidade.

esse texto é uma provocação, não uma tese. é um convite ao debate, não um julgamento. por favor, discordem (:
sigamos o debate

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